Meu Diário
21/11/2018 10h54
O livro dos amigos e conhecidos - #4

Rose, diarista solidária.


Nas demais regiões do país, citarei três das quatro em que tive o privilégio de morar, o convívio se mostrou completamente diferente, sobretudo na questão do relacionamento, do acesso às pessoas, do contato propriamente, aquela coisa do "se dar". Dar ao outro a oportunidade de "se chegar", de ser recebido pelos autóctones. Destacaria apenas duas situações para o que se pretende explicar. A primeira é sobre a recepção, a acolhida. Nesse quesito a região Norte é imbatível. No que concerne à trabalho, porque em todas as regiões se trabalha e muito, mas o trabalho como forma de prazer, sentido bíblico, Gn 3:19, sem o constrangimento da exposição, esse, a região Sul é campeã.  Não se trabalha só para ganhar o pão, menos ainda acumular riquezas, falo de pessoas comuns, entenda por comum aquele que dista da minoria que visa o lucro e a ostentação, prática em todos os lugares onde a mão do homem labora. Falo dos comuns que buscam no trabalho a sua independência, sua realização como cidadão economicamente ativo e útil. Rose é uma dessas muitas diaristas e pessoas que conheci e ainda hei de conhecer. Tem por seu trabalho a satisfação e esmero no que faz. Cuida do bem alheio como sendo o seu. Vai além do que lhe caberia realizar. Além do trabalho como diarista, ainda tem atividades que dá alívio aos que padecem de problemas aparentemente simplórios, como unha encravada, é podóloga, é ouvinte, é humana. Soube recentemente que vem se tratando de um câncer e que por conta disso tem feito quimioterapias, vai a Joinville algumas vezes por semana, mesmo voltando enjoada e depauperada, mantém sua rotina sem o lamentar dos ingratos. Essa condição ficou evidente quando me deparei com ela e ficamos frente à frente notando sua perda acentuada de peso e olhar cansado, porém, o sorriso e a determinação continuam os mesmos. Não bastando isso tudo, ainda se mostra desapegada e solidária para com suas posses. Sem que me lembrasse, há dias comentei o fato de que precisava limpar o limo e o bolor do piso do quiosque para a inauguração,  passados uns dias, ela vem a minha casa trazer a máquina de pressão a água, Vap, como é conhecido, equipamento de uso profissional e pessoal. Solidariedade é isso.


Publicado por LuizcomZ em 21/11/2018 às 10h54
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original ("Você deve citar a autoria de Luiz Antonio de Campos e o site www.luizcomz.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
19/11/2018 01h01
O livro dos amigos e conhecidos - #3

Vitória
Recordo-me de que ela tinha para comigo um carinho especial, talvez pelo fato de morar muito próximo e viver enfiado na casa dela, ou porque havia de fato uma empatia muito grande entre nós dois, ela concedia a mim coisas e benesses que a nenhum outro neto eram dadas. Minha avó paterna tinha um olhar meigo e o sorriso suave, quase que um leve afrouxar da musculatura facial, algo singelo, porém, emblemático. Era com esse sorriso suave que me recebia, um sorriso de vó. Mesmo quando eu pegava as samambaias enormes segurando numa das pontas e com o indicador e o dedão, numa velocidade constante deslizava de cima à baixo para ver e sentir o estalar miúdo de suas folhas se desgrudando do talo fazendo um amontoado na beira do xaxim, ainda assim ela não conseguia dar a impressão de que estava descontente, e menos ainda zangada. Sempre tinha um bolo, um doce guardado para quando eu chegasse. Certa vez, entre tantas, o bolo ainda estava no forno, pedi um pedaço e ela me disse que estava quente. Insisti novamente e ela me falou, - Bolo quente faz mal. Perguntei, de que tipo? Dá dor de barriga, respondeu. Ah! então pode me dar, se der dor de barriga eu vou no banheiro. Ela soltou um gargalhada como poucas. Algumas vezes ela me dava umas moedinhas, eram suficientes para comprar uma lata de leite condensado moça, não havia outras marcas, isso em 1962, e a mercearia ficava na esquina da mesma quadra.  Lá ia eu todo faceiro. Na volta passava direto pelo corredor de acesso ao quintal, subia num pé de goiaba e já com a lata furada em dois pontos, de um lado para beber e do outro para o ar sair, chupava até dar cócegas nos cantos da boca próximo à garganta. Que delícia! Mas isso me causou uma alergia, ou algo do tipo, fiquei bem uns dez anos sem poder ver a lata nas prateleiras dos mercados que já me coçava a garganta. Uma das coisas que mais eu gostava era de chegar na casa dela e pedir café com leite, pão e manteiga. A maneira como ela adoçava a xícara era diferente de todos os outros. Ela dava apenas meia volta na xícara, não completava o giro, levava a colher de um ponto até a metade e voltava de ré, não fazia o redemoinho. Achava isso engraçado e perguntava porque ela não fazia como todo mundo, girando por completo, ela não respondia, só me olhava e sorria. Isso se repetia sempre. Muito bom lembrar dela.


Publicado por LuizcomZ em 19/11/2018 às 01h01
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18/11/2018 13h43
Livro dos Espíritos - Questão 717

Lei da Conservação

O Necessário e o Supérfluo.

Pergunta. O que pensar dos que açambarcam os bens da terra para se proporcionarem o supérfluo, com prejuízo daqueles a quem falta o necessário?

Resposta dos Espíritos. Esquecem da Lei de Deus e terão que responder pelas privações que houverem causado aos outros.

Comentários meus. Tudo tem a ver com o egoísmo e o sentimento de solidariedade.

Todos os problemas existenciais, familiares, sociais, trabalhistas e principalmente financeiros são frutos do egoísmo. Enquanto que a solidariedade não é percebida na sua amplitude, sobretudo, cristã.

O que é solidário? No dicionário há uma pequena e singela significação do termo. Compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todos. No entanto, estamos a falar da verdadeira solidariedade. Tome por exemplo a função da grama. A grama morre para servir de pasto, o alimento do gado, que por sua vez morre para ser o alimento do homem. E o homem, sua morte física alimenta o quê? É o alimento dos microrganismos que por sua vez transformam-se em novos elementos e dão vida a outras formas de vida orgânicas, plantas e animais, a própria terra se nutre e gera nova vegetação, está refeito o ciclo novamente, novos pastos, novos bois e vacas, e consequentemente, nos alimentamos do mesmo modo. Do átomo ao arcanjo. A solidariedade, portanto, vai além do compromisso em ajudar o parente ou o vizinho desalentado. É o dar sentido à existência como um todo. É saber que minha contribuição para com o próximo, envolve o todo. Se tudo é energia, tudo é partícula, então somos parte dessa cadeia universal. Já se provou pela ciência e a cosmologia, na voz de Carl Sagan, que o DNA de Deus está impregnado em tudo, são os Quarks. Essa partícula está em tudo o que se possa imaginar, ver, tocar, sentir. Estou falando, tudo! O som de minha voz, a tinta desta caneta, os teclados do netbook, a mesa em que ele está apoiado, o piso que sustenta a mesa, a cadeira em que estou sentado. O som dos pássaros no meu jardim, o barulho das ondas do mar, as ondas do mar, os anéis de saturno, as inúmeras galáxias do vasto universo possuem essa partícula. Isto é a solidariedade. A distribuição ampla e total de um bem. É nesse contexto que os Espíritos se reportam, “Olvidam (esquecem) a lei de Deus... responderão pelas privações que houverem causado aos outros”. De que outros eles estão falando? Note que não disseram deste ou daquele. O outro é tudo o que não é você. Por tudo, entendamos, qualquer coisa. Não apenas o amigo, o parente ou o vizinho. Quanto ao egoísmo, é tudo o que a verdadeira solidariedade não é. Uma boa analogia é o caso do ladrão de obras raras. Rouba um quadro importantíssimo, a Mona Lisa, digamos. Recebe por isso milhões de um comprador que nunca poderá expor o quadro sobre pena de cometer o ilícito e se declarar culpado. Qual a vantagem de ter algo tão caro, importante, requisitadíssimo e não poder expor. É o ápice do egoísmo. Subtraiu uma obra humanitária de prestígio e que deveria servir ao interesse e admiração de todos, apenas para deleite próprio e de bem poucos, que como ele, se compraz nessa prática. Onde está a satisfação, a felicidade nisso? Guardando as devidas proporções, isso é o mesmo que jogar fora o que sobrou do almoço só porque não sabemos dosar nossa saciedade, enquanto muitos estão à espera dessa sobra. Responderemos por isso igualmente.


Publicado por LuizcomZ em 18/11/2018 às 13h43
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15/11/2018 18h27
Passear, sair e interagir

 

Se hoje é quinta feira, por mais óbvio e simplório que possa parecer, ontem foi quarta feira. Hoje é 15, ontem foi 14. Pense nisso com mais amplitude. O dia de todos os Santos já passou e nem temos certeza de que no dia 1° de novembro deste mes, talvez e certamente, não há como lembrar o que fizemos durante esse dia. O temível dia 28 de Outubro, o dia em que as urnas poderiam trazer surpresas desagradáveis para uns, e trouxe, mas o medo era o de que  seriam manipuladas, esse dia também já passou. E a copa do mundo de futebol no Brasil? Já vimos a França vencer a seguinte, na Rússia. E o hexa tão esperado ficará para a da Ásia. Ou não. Fico olhando para pessoas que irão passar mais um dia sem saírem de casa, não porque não podem andar ou dependam de outros para se locomoverem, mas porque não querem conhecer gente, não querem falar com gente. Gente é um universo em si. Marco Antonio, imperador Romano da Escola Estóica de Filosofia, dizia que sempre que morre um ser humano é uma perda irreparável, pois deixaremos de conhecê-lo, de saber dele, daquilo que o movia, o inspirava, aquilo que era importante para ele, o mínimo que ele sabia deixou de ser conhecido. Deixamos de interagir com pessoas que só terão a oportunidade de se mostrar se lhes dermos a chance de se comunicarem conosco. Que triste é o desperdício do dia. À noite as pessoas se recolhem à espera de repetir tudo igual no dia seguinte. 


Publicado por LuizcomZ em 15/11/2018 às 18h27
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13/11/2018 14h49
O livro dos amigos e conhecidos - #2

Dani
Um aperto de mão vigoroso. Não fosse pela feminilidade explícita em formas e gestos, diria tratar-se de um estivador, tal a força que impõe às mãos de quem a cumprimenta. O sorriso sempre disponivel e escancarado esconde um passado nada pueril. Desde muito cedo, dos 4 aos 12 ou 14 anos, sofreu constantes abusos sexuais. Todos de pessoas próximas e ligadas à mãe. Eram os namorados, padrastos, irmãos da igreja e os pastores, sim, no plural. Ímpios em pele de cordeiros. Sabedores que a mãe não tinha o devido cuidado com a filha e ainda fazia vistas grossas, sua casa era uma via sacra da pedofilia. Até se dar conta de que aquelas 'visitas' eram anormais, isso só foi ficando claro quando passou a participar de grupos com crianças de mesma idade e que não tinham tido as mesmas experiência que ela frequentemente se deparava, notou que para essas crianças, o assunto era proibido e as mães alertavam para que todo tipo de assédio ou investida, fossem relatadas de imediato a uma pessoa adulta, preferencialmente, mãe e pai. Passou então a indagar da mãe,  que, como na maioria de casos como esses, preferem achar que os filhos fantasiam "pequenos agrados" dos adultos. Isso fez procurar ajuda na única forma que veio à sua mente, antecipar precocemente a maturidade e maioridade. O primeiro namorado, aos 16 anos, que compreendeu e se propôs a ajudá-la, saiu de casa e foi morar com o que hoje, é seu atual companheiro e marido. A compreensão e apoio do companheiro foram fundamentais para um novo ciclo em sua vida. Hoje, com a vida normalizada, frequenta uma igreja em que se prioriza os estudos com fé raciocinada, tem compaixão da mãe e não guarde mágoa ou ressentimento do passado recente.
A dor é mestre no aprendizado. É preciso que haja o atrito, sem o qual, não há impulso ou ascensão. É preciso superar as crises para que se possa crescer.
Jorge Angel Livraga, fundador da Escola de Filosofia Nova Acrópole,  apregoava que, para se atingir um novo ponto, preciso é que se deixe o antigo.


Publicado por LuizcomZ em 13/11/2018 às 14h49
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