Textos


Insônia

Certa noite, discutindo a relação, com muita calma e coerência de ambas as partes, minha esposa disse que gostaria de escrever uma carta explicando o motivo de uma depressão eminente. Ouvi como bom escritor e transcrevi na mesma madrugada, para não perder tempo e informação, tudo o que foi possível anotar. Editado posteriormente com a cumplicidade dela, naturalmente.


Carta para ninguém, ou para mim mesma...
- Mais uma noite sem dormir. Mexendo no quarto de bagunça achei a carta que fala do rio. De como atravessar o rio. Foi escrita no vôo da Varig dia 23 de setembro de 1999. Acontece que nos propusemos a atravessar o rio com meu marido, e a julgar pela minha insônia, apatia, sono profundo durante o dia e fadiga constante, ainda estou do lado de cá do rio. Com as mãos estendidas para o grande amor de minha vida, meu companheiro. Com o coração estraçalhado, em frangalhos, de tanta saudade. Saudades do Elmer, que tentou, mas ainda assim voltou. Mesmo tendo uma ponte segura que é o pai, preferiu voltar ao encontro do seu amor, a Mikele. Foi buscar o que julgou ser o seu ninho, nossa casa, a Funny, nossa capa preta de muitos anos, 14 ao todo. Amigos conquistados ao longo dos tempos, felicidade, segurança, sol, luz, energia. O pé de mangas Bourbon, deitar no chão da varanda de piso branco, ouvir os pássaros, deixar a porta dos fundos aberta ao sair. O barulho da mesa de sinuca durante a madrugada. As gargalhadas dos meninos ao brincarem de bola com a Funny ao redor da casa. De levarem os amiguinhos e amigões para casa a qualquer hora. De poder ouvir suas conversas ingênuas e cheias de planos, a felicidade em seus rostos. A felicidade dos meus filhos. Saudades dos meus pais, da Dª Irya, minha sogra. Saudades dos abraços da Larissa, forte e cheio de energias que somente ela sabe passar, acima de tudo, sincero e cheio de amor. Saudades das longas conversas com a Cris, sua coerência e justiça, minha doce e meiga amiga. Saudades da mansidão da Jussara, um corpão enorme e uma voz doce e calma. Nunca a vi descontrolar-se, mesmo nos momentos mais críticos pelos quais tenha passado, e foram tantos. A gritaria da criançada, Larissa, Tammy, Cristiano e Tatá. A Cema querendo se passar por durona, sargentona, mas que não passa de uma mãezona sempre pronta a acolher e entender a todos. O parceiro de mau-mau, Melo, e sua irritante paciência de fazer monge tibetano pirar. Meu amigo Sérjão com seu jeitão explosivo, genioso, instável, mas com um coração ‘enorme’ compatível com o seu físico. Grande, enorme amigo! Sempre pronto a socorrer nos momentos que pede calma e solicitude. Lica e Memé, admiráveis com suas forças, mesmo com todas as turbulências recentes.
Minha casa era só luz, felicidade, fraternidade com aquele povo todo. E pensar que foi a dor que nos uniu. Cada uma das amizades se fortaleceu exatamente na adversidade de cada um. A fazenda em Rio Negro. Lugar único, lindo, energizante, parecia ter sido feita apenas para a nossa turma. Outra turma, mesmo a dos verdadeiros donos, não gozava a mesma reciprocidade.
Saudades de uma família de malucos e mutuamente apaixonados. Os Padovan. Sempre foi um grande prazer participar das festas e momentos descontraídos na casa da Rua Papagaio. Todos falam ao mesmo tempo, comem o tempo todo, riem de tudo e de nada. Parecia mesmo um bando de papagaios.
Saudades da casa de meus pais, da casa onde cresci. Da cozinha de minha mãe. Da doçura de meu pai e seus ‘ditados’ de enlouquecer, devéras sábios. Uma das pessoas mais sensatas que conheci nesta encarnação, certamente, meu pai. O abraço de minha mãe, suas brigas homéricas com meu pai, por motivos de sempre. Poderia passar noites, minha insônia completa lembrando pessoas e lugares que sinto saudade. O ‘centro’ da casa do Carlos e da Beth. Casa do Amparo. Meus tios Noêmia e Odilor, Miriam e Adir, minha madrinha Meire. Meus amigos do Hospital Miguel Couto, da UTI, Cibelly, Anilton, Dra Sônia.
Mas, é hora de atravessar o rio. Preciso atravessar esse rio de uma vez. Tem dias vou até a metade e volto correndo. Volto quando vejo os meninos tristes, o Luiz desanimado com seus projetos, quando a saudade bate forte, muito forte. Já atravessei rios mais caudalosos que esse. Piores até. Muito mais traiçoeiros, mas, nunca nenhum que atingissem meus filhos como esse tem atingido. Sei que posso e devo atravessá-lo. E também porque preciso ajudar meus filhos a transpô-lo. Mesmo eles querendo voltar, mesmo dizendo que lá, do outro lado não é o lugar certo para estar. Preciso arrumar um trabalho. Antes tinha sobrenome corporativo, era a Rose da UTI do Miguel Couto.
Preciso voltar a dar ouvido aos meus mentores. Confiar mais em Deus novamente. Com ajuda deles sei que não há de haver rio que me impeça de estar completa ao lado de minha família.
Adoro Brasília, adoro meu apartamento, e o mais importante, amo o Luiz mais que tudo, estarei sempre ao seu lado...

(... parou exatamente neste ponto. Talvez seja a insônia, finalmente vencida pelo sono, tomara seja seus mentores a lhe convidar ao repouso...)
... Você é linda, mais que demais, você é linda sim. Onda do mar de amor que bateu em mim. (CV)
Esse trecho da música do Caetano é um resumo do que sinto do amor que sente por mim.

*escrito em Brasília-DF, num mês qualquer do primeiro semestre de 2000.
LuizcomZ
Enviado por LuizcomZ em 03/06/2008
Alterado em 18/10/2012
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários