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Nos trilhos da vida.video

O Renato Calvície me fez um grande favor postando essa relíquia sobre as viagens de trem nos anos 1960 e inicio dos anos '70. Fez com que eu voltasse aos anos de 1965 à 1971, contava com idade entre nove e onze anos, uma época em que nosso principal meio de transporte era RFFSA, a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima. Para irmos de Ponta Porã, minha cidade natal à Campo Grande, hoje capital do estado de MS, a maneira mais rápida e segura era através dos trilhos na NOB, a Noroeste do Brasil. São tantas lembranças que uma crônica é pouco, necessitaria de um livro, no mínimo uma resenha. Os dias em que antecediam as viagens eram os mais ansiosos na vida do menino Luizinho, como minha mãe, avós e tias me chamavam. Não via a hora de chegar a noite para dormir logo e assim que acordar o cheirinho do frango frito embrulhado na farinha já estava pronto para a matula durante a viagem. Claro que, apesar disso, não poderia faltar o famoso sanduiche de pão com manteiga e mortadela servido nos vagões pelo sempre barrigudo “homem do lanche”. O guaraná antarctica, de garrafa, e com o “c” para dar mais impacto na leitura. Pela janela, como no vídeo, para ver as horas passarem mais rápido, começava e reiniciava a contagem dos postes do antigo telégrafo, esses acompanhavam todo o trajeto junto aos trilhos. De repente, ouvia-se aquele vozeirão, “Maracajú”, o grito ecoava no vagão avisando os dorminhocos que a próxima cidade já apontava na curva, era hora do picotador, o agente das passagens. Vinha com seu alicate de pico perfurando os bilhetes, pequenos cartões de papelões crus. Maracajú era uma as paradas mais aguardadas da viagem, além de marcar a metade do caminho, havia ali os vendedores de chipas, e também as famosas broas, que nada mais eram do que umas roscas enormes de polvilho e que causavam uma reação de gula provocada pelas solitárias que habitavam os intestinos da molecada toda. O gosto pela leitura surgiu nessas viagens. O homem das revistas, aparecia com uma pilha delas em sua biblioteca ambulante, uma toalha do vagão restaurante amarrada em volta ao pescoço em forma de rede com uma imensa variedade de revistas, gibis, palavras cruzadas. Destacavam-se, Seleções Reader's Diges, O Cruzeiro, nesta, a primeira página que eu recorria era a do “Amigo da Onça”, uma charge sempre com anedotas sobre algum político ou assunto popular. As que eu mais procurava eram os gibis, histórias em quadrinhos do Maurício de Souza, a turma da Mônica, haviam também o Recruta Zero atazanando o Sargento Tainha e seu cão, Oto. E o curioso era que todos os “homens” das revistas, sanduiches e picotadores, eram um só. Ela trocava de roupa, ou melhor, tirava o paletó de cobrador e usava uma jaqueta branca para servir os lanches e voltava com uma outra qualquer para vender as revistas, demorei para perceber esse teatro. Nessas viagens, anos mais tarde vim a compreender a história dos cavalos brancos. Para passar o tempo, ficava debruçado na janela contando os cavalos que apareciam, nunca havia prestado atenção nos brancos, embora eles também faziam parte da paisagem, acontece que nunca os percebia. Muito anos depois, já casado e trabalhando numa multinacional americana, me deparei com uma analogia que me levou aos tempos em que viajava nos trilhos da NOB, nas minhas palestras como multiplicador aos vendedores dos diversos distribuidores que contava em minha carteira de clientes, explicava que para encontrar novos mercados, abrir novos clientes, era preciso observar os cavalos brancos. Acontece que nas viagens, quando contava os cavalos, os brancos também apareciam, mas, eram contados como “cavalos” e não como cavalos brancos. Como eram em menor número, nunca dávamos a atenção necessária. Ao procurar apenas os brancos, via que eram em bom número e que haviam ao longo de todo o trajeto. Oferecia então aos vendedores a opção de perceberem que no trajeto que faziam entre um cliente cadastrado e outro, prestar atenção naqueles que deixavam passarem despercebidos, seja porque eram pequenos ou de aparência duvidosa. Isso os levava a abrirem conta que somadas geravam bons pedidos. Tudo na vida é aprendizado. Os trilhos da NOB tem muitas histórias ainda para serem contadas.

 
LuizcomZ
Enviado por LuizcomZ em 28/02/2019
Alterado em 01/03/2019
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