Textos


Esta é uma crônica um tanto mais longa que de costumo
 
Recebi a visita de minha mãe neste mês de Outubro, um pouco de nossas histórias...
 
O ano era 1970, meandros da primavera,
Campo Grande nessa época sempre quente
e ensolarada. Ainda provinciana, nada escapava aos olhos da circunvizinhança, sobretudo, daquelas interessadas, para usar um termo educado e não pejorativo. Contava eu com doze anos inteirados em
setembro passado, minhas preocupações, além do colégio Dom Bosco, eram os finais de tardes na pracinha da rua Joaquim Murtinho, na interseção com as ruas Rui Barbosa e 26 de Agosto, ficava em frente ao Condomínio Vespasiano Martins, portanto, no início da Joaquim Murtinho. Minha casa ficava ao final da primeira quadra, próxima à Pedro Celestino. Foi nessa casa que muitas ocorrências marcaram minha pré-adolescência. Na mesma quadra, mais próximo à pracinha, morava uma família, pais e quatro filhos, na mesma quantidade que a minha, porém, eram dois casais, ao passo que, erámos três meninos e uma menina. O pai daquela família, já falecido, era do Exército, sargento Orlando Oliveira. Tinha ele predileção pelo esporte, o futebol, e era palmeirense. Tinha registrado na federação amadora campo-grandense de futebol uma equipe mirim e infanto juvenil, e que, como outras tantas agremiações disputavam o campeonato local. Mais tarde, ano seguinte, vim fazer parte dessa equipe, o que me alegrava em muito o fato de sendo palmeirense desde sempre, isso me deixava muito orgulhoso por haver sido escolhido. Mas, o assunto que mais me chama atenção para este texto, não vem do esporte, ao contrário, vem de uma situação que nada tem de esportiva ou que lembre saúde. Como disse, contrariamente à tudo, presenciei inúmeros acontecimentos que marcaram um tanto minha estada naquele pedaço da cidade. Minha mãe havia contraído uma doença, a princípio era o que se dizia, atestados médicos não faltavam. No entanto, tudo começou quando ela resolveu recolher em casa um tio meu, irmão de meu pai que havia sofrido um acidente na lide diária operando um trator, quando ainda morava em Ponta Porã, de onde viemos todos. Havia ele caído do paralama esquerdo da enorme roda que lhe passou por sobre a perna à altura do fêmur, incapacitando-o por longo tempo. Tempo este que acabou por culminar entre outras coisas, com a dissolução do casamento. Evidentemente que houvera outras coisas, não vem ao caso comentar. Passados anos desse acidente, ele não se recuperou totalmente do problema, e em tempos outros, acrescido de inúmeros outros incidentes, decepções e depressões, terminou por ser diagnosticado com esquizofrenia, assim como ainda não se conhecia tais patologias, como depressão,
muito menos um diagnóstico sobre o assunto, era comum internações em sanatórios psiquiátricos.
Ocorre que, ao recolher em casa para ajudá-lo, isso anos depois, trouxe junto seus remanescentes espirituais, os chamados ‘obsessores’; isto posto, àqueles que conhecem e entendem da Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec na França de 1850, época aproximada do surgimento das tais mesas girantes. Os primeiros registros de Kardec datam de 1860. Mas, o ponto crucial desta narrativa se prende ao fato de que com a vinda desse tio, as coisas em casa começaram a ficar menos harmoniosa. Numa manhã, não me recordo se dia de semana ou no sábado, acordo com um barulho enorme de coisas quebrando e um vozerio continuado e sem nexo vindo da cozinha. Estávamos apenas nós, meus pais não estavam em casa. Levantei-me apressado e assustado, fui até a cozinha e a cena era brutal e sem precedentes, nunca havia visto ou ouvido algo a respeito. Esse meu tio estava nu, besuntado de manteiga por todo o corpo, parecia uma fatia de pão de forma coberta pela iguaria, raivoso, xingando, querendo derrubar a geladeira, só não conseguiu porque a porta abriu e fez escora, no entanto, todo o conteúdo veio ao solo. Feito isto, partiu para a sala e foi direto num televisor, Canarinho ABC, uma marca alusiva ao tricampeonato de futebol do Brasil no México, em junho daquele ano. Não sei como superei o medo e me enfiei entre ele e a TV chorando para impedir que a virasse ao chão. Após isso, dali ele rumou para a porta, abriu, na varanda, virou umas cadeiras de área, foi ao portão da frente, destravou e na calçada, pelado e todo lambuzado de manteiga, começou a rolar no chão e gritar nomes como, Getúlio Vargas, Castelo Branco, entre outros. Nesse interim, a vizinhança toda já na calçada, mas apenas a Dona Martina, esposa do sargento Orlando é quem foi até lá com uma toalha ou cobertor para acalmá-lo e tentar recolher para dentro de casa, coisa que não conseguiu sem ajuda de outros moradores. Fato ocorrido, meu pai resolveu então que havia de levá-lo de volta para o Sanatório Mato Grosso. Mas sua ida não ficou barato. Deixou os seus “amiguinhos” por lá e, claro, sobrou para quem? Dona Irya, minha mãe. A falange era tamanha que aos poucos e em pouco tempo, ela já não andava mais, fora diagnosticada com um tipo de lesão na coluna, já não conseguia caminhar ereta, toda curvada, ficou em cadeira de rodas, e uma das pernas mais curta que a outra, provavelmente pelo problema da coluna. Remédios e mais remédios iam se amontoando na cabeceira da cama. Já não podia mais cuidar da casa, foi quando meu pai resolveu achar uma ajudante. No Condomínio Vespasiano Martins havia uma faxineira que se prontificou em trabalhar, essa pessoa numa rara manifestação de lucidez acerca da situação, pediu licença e disse que a doença dela não tinha nada de física, era puramente espiritual, minha mãe naquele tempo não entendia nada a respeito disso, perguntou e a ajudante respondeu que sabia de uma senhora que morava próximo e que benzia, usava uma ramos de ervas e curava muitas pessoas com aquela prática. Com muita dor e custo, ajudada pelo Beto, meu irmão mais velho, foi até a casa dela, mesmo antes de chegar, a senhora benzedeira alertou as demais, ficou sabendo disso depois, que estava para chegar uma senhora que precisaria passar na frente, ser atendida primeira devida a urgência. Lá chegando, após atendimento, essa senhora a encaminhou ao Centro Espírita Discípulos de Jesus, mais tarde veio agregar a Federação Espírita Mato-grossense. O curioso, essa senhora era sogra da dona Martina, também casada com o seu Lucas Ferreira, um corredor fundista já com idade acima dos sessenta anos e que era também, juntamente com o sargento Orlando, de quem era pai, técnico da equipe juvenil do Palmeiras, equipe que eu viria a atuar como centroavante pelos próximos três anos seguintes.

Também nessa família, conheci um grande amigo, Dalton Luiz de Oliveira, filho do Sargento Orlando, hoje mora em Brasília, seguiu a carreira jurídica e atua num dos órgãos federais. Nossa amizade rendeu boas histórias, uma delas foi que criamos a primeira e única liga de futebol de botão, claro que eu ganhava todos os campeonatos da rua. E posso dizer, sem modéstia nenhuma, não havia ninguém nas imediações que me superava. Numa dessas competições íamos até a casa do seu Lucas Ferreira, lá moravam os primos dele, o Augusto me recordo bem, vinha também o Roberto, que mais tarde firmou carreira militar. Lá tive pela primeira vez a sensação do que viria a ser a tal tremedeira da paixão. Conheci uma das primas do Dalton que vinha ali vez por outra, Juciara, ainda mora em Campo Grande, muito bem casada, filhos e uma vida plena, tem por hobby a fotografia e gosta de ilustrar sempre com versos de nossos poetas e escritores contemporâneos. Mas, como tudo na vida são etapas, esse foi mais um bom capítulo que guardo com muito carinho por tudo e todos.
A partir desse encaminhamento feito pela avó da Juciara, minha mãe conheceu a Doutrina de Kardec, e sem nunca haver forçado a barra, ou exigido de nenhum dos filhos, sempre seguindo no caminho do Evangelho Segundo o Espiritismo, aos poucos todos da família acabaram por se dedicar ao pensamento Kardecista. Enquanto eu, desde os 19 anos venho fazendo palestras em vários Centros e em diversos estados por onde passei, e, ou, outros por convites. Lembrando que, nosso tempo neste plano é limitado ao período que o espírito tem entre o nascimento e o desencarne. Sempre lembrando que nosso retorno ao Uno, é certo.


Foto: Árvore - acervo Juciara Piancó
LuizcomZ
Enviado por LuizcomZ em 08/10/2019
Alterado em 08/10/2019
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