


Seguramente essa é a primeira bebida que tenho lembrança de haver conhecido. O café e o leite não contam, nem os dois unidos. Por volta do ano de 1963, contava com 5 anos de idade na fazenda de meu avô Portela, por parte de mãe, sempre às manhãs e final de tarde ele sentava na varanda da casa principal, e, calmamente cevava la yerba amarga, bem à frente havia uma árvore enorme, que também mais tarde vim saber tratar-se de uma caducifólia, que em sua idade adulta chega a atingir 25 metros de altura e tem uma variedade de nomes, como bananinha-do-japão, caju-do-japão, chico-magro, gomari, passa-do-japão, passa-japonesa, pé-de-galinha, uva-da-china, uva-do-japão e uva-japonesa. Para nós naquele tempo e local, era a uva-japonesa. O gosto, entre o sem graça e o adocicado. Mas era algo que se comia quando se achava caídas ao chão. Em tempos de férias escolares, lembro bem das tias chegando com os primos, dos tios tenho pouca lembrança, talvez um ou dois, assim mesmo sem ter certeza, mas as tias eram maioria e alegres quando se encontravam, falavam alto e davam gargalhadas estridentes, a fazenda ficava cheia de alegria. Essa é minha lembrança, já não posso garantir a dos outros primos, tão pouco das tias, afinal, adultos, também vim saber depois, mesmo rindo guardam rusgas.
Mas o que vale dizer é que minha infância nesse período foi bem legal. Ah! o chimarrão. Sim, também fiquei sabendo mais tarde que devido a esse hábito diário e longo, meu avô faleceu por conta de um câncer no fígado, disso não tenho bem certeza, mas o fato é que culparam o chimarrão. Ele deixou a vida no ano de 1971, se bem me lembro. Portanto, foram oito anos de convivência entre idas e vindas na fazenda ou em sua casa, e aqui abro um parênteses, para mim era a maior e mais bonita casa de Ponta Porã, eu a chamava de “a casa de pedra”, pela fachada enorme e majestosa que em minha visão era sem igual, até porque, não frequentava outros lugares ou bairros, ia da casa de minha avó paterna, vó Vitória, uma casa pequena se comparada a dele, e à estação ferroviária ver a chegada e partida dos trens, em especial, da Litorina, esse era um trem diferente para a visão de um menino de 6 a 8 anos naquele tempo. Mas tem uma coisa que me lembro bem, das matines no cine Cruzeiro, os filmes do Tarzan, dos faroestes e principalmente dos gols que o Canal 100 apresentava antes do início das sessões. Penso que aí começou minha paixão por futebol, por nenhum time específico, mas pelo futebol.
Das lembranças menos felizes posso garantir que nenhuma superou o jogo de amarelinhas, aquele que as crianças riscam o chão com quadrados e numeram de um a sete, indicando o último como o céu, tanto que alguns o chamam de “sétimo céu”. Numa das tardes pulando esses quadrados, ao invés de jogar uma pedrinha, como era o normal para marcar a “casa” que deveria alcançar pulando, achei que deveria jogar uma coisa maior e que não rolasse no chão ao cair, as pedrinhas geralmente não paravam de primeira quando caíam, e isso era feito de costas, para não escolher o número a ser conquistado. Escolhi uma escápula, ou omoplata, um osso que se parece com uma raquete, e de costas, joguei. Acertei na cabeça, na testa de uma menina, que mais tarde vim saber ser filha do delgado de polícia do batalhão que ficava próximo e no único caminho para chegar na ferroviária. Ou seja, fiquei mais de um ano sem ir ver a Litorina. Mas tem um lugar que ia com certa frequência, por conta do Canal 100, quando não tinha alguma tarefa ou coisa do tipo, nos reuníamos na fronteira seca entre Brasil e Paraguai para uma pelada de futebol, as traves (!) eram feitas de varetas cercadas e equilibradas com pedras, apenas para dar noção de onde a bola poderia passar para que se configurasse um gol. Numa das vezes, meu primo, Luiz Assunção, o Sazão, decidiu que queria ser engraxate, minha tia lhe presenteou com uma caixa equipada com os itens necessários para tal, escova, flanela, pasta de lustrar, e, uma caixa novinha. Ele foi jogar bola com a gente e deixou a caixa próxima à beira do campinho, resultado, roubaram antes dele engraxar o primeiro sapato. Foi um livramento, soubemos mais tarde. Abandou a ideia de empresário e se formou médico, o primeiro da família, penso que sua especialidade é ginecologista obstetra, salvo engano. Graças ao larápio que levou sua caixa, o destino mudou radicalmente.
Assim, penso que o nome desta crônica deveria ser: …”se me lembro bem” ou “mais tarde vim à saber”…, lembranças, talvez, o fato é que por conta de uma foto de bom dia do meu amigo Renato Calvície, no WhatsApp, com uma cuia de chimarrão fumegante e apetitosa, me veio à lembrança um pouco da minha infância.
Bom dia, e cuidado, a guampa pode ser morna, mas a bomba é quente, não vá queimar o beiço.