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A miopia da proximidade!

Estou perto, ouço longe.
Para ver melhor me afasto,
Como olhar binóculo ao contrário.
Estava tão próximo. Logo ali, por detrás da porta.
Me vi crescer, convivi. Pior ainda, fui moldada, acostumada.
Sei que ouvi! Medos! Todos os meus medos,
minhas noites em branco, carências, meus traumas.
Vazio constante. Já era crescida quando percebi.
Só fui ligar o nome à pessoa, o dedo ao anel,
o ato ao som, quando experimentei do mel!
Então era isso. Toda minha infância sem saber ao certo o que ouvia.
Nada demais. Era o som do amor. E também não estava
tão longe. Nem precisa afastar-me tanto.
De tão próximos pareciam distantes. Eram grunhidos abafados.
Mas, perto. Juro! Pensei em brigas, discussão, ataques de asma,
do coração. Total agressão. Cresci abobalhada. Mais tarde,
somente no caminho das letras, na interação,
nas trocas acadêmicas, foi possível alento ao coração.
Luz, enfim! Estava claro como o dia. Ela não o odiava,
nem estava sofrendo, tampouco doía. Ao contrário,
por sua vez, ele compartilhava em tudo num ritmo
alucinado, frenético e receptivo da parte dela.
Como viajei! Estavam se amando. Apenas o som dor amor!
Por que fazem paredes e portas tão finas?
Horas a fio. Momentos intermináveis. Divãs, regressões, análises mil.
De verdade, nem tudo é perfeito.
Por conta disso não adianta fugir, o estrago foi feito. Minha nossa!
Será hereditário? Paranoia. Filhos! Terei mais cuidado.
Uma etapa de cada vez. Quanto teria economizado!
Menos estresse, menos medo, menos dúvidas, nada de fugas,
menos namorados, mais ficantes, as relações teriam
tido mais qualidades, certamente. Ainda os ouço vez por outra.
Minha mente insiste, meus pensamentos me traem.
Minhas lágrimas ainda caem.
É bem verdade, a pouca idade piorou o cenário.
Mas como diferenciar?
De fato a miopia da proximidade existe!
Ouvi tudo! E muito bem!
O som, eram meus pais fazendo amor.
LuizcomZ
Enviado por LuizcomZ em 15/05/2008
Alterado em 12/09/2013


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